Quinta insana.

26 06 2009

Foto por: Camila Pastorelli
Dia mais estranho esse ontem. Não ir trabalhar em plena quinta-feira, visitar uma senhora de 92 anos de idade, passar na avenida Paulista e entrar numa festa junina dentro de um casarão… Ok, isso merece uma explicação.

Essa cidade é muito engraçada mesmo: pegam um tremendo de um casarão antigo, lindo e começam a fazer uma aparente reforma. Eis que um belo dia descobre-se que a reforma é para uma festa junina. Até aí, bacana. As bolinhas de sabão são convidativas, assim como os enfeites de São João – ou São Pedro, não sou boa com rostos…

Ao entrar, descubro que os únicos elementos que fazem daquele evento uma festa junina, são a música sertaneja/caipira, as bandeirinhas e o quentão e o vinho quente vendidos em um canto qualquer. A grande sacada do negócio é abrigar as mais diferentes variedades dos “camelôs descolados”, que vendem roupas descoladas e objetos mais descolados ainda. Coisa fina e descolada, você precisa ver. Como não estava interessada em nada que estavam oferecendo… Quer dizer, mentira. Até me empolguei com o quentão, mas achei que não valia os dois reais e cinqüenta centavos que pediam. Pode chamar de mão de vaca, nem ligo.

Sai de lá, tentei tirar algumas fotos das bolinhas de sabão, do casarão e da bonita luz da avenida, mas nada com muito sucesso. Me lembrei que era uma quinta-feira e que o ingresso do Espaço Unibanco de Cinema fica a dois reais e cinqüenta para eu e você, caro estudante. Feito. Troquei meu vale-quentão por um vale-filme. Tá certo que estava sem minha carteirinha de estudante, então paguei cinco reais no ingresso, mas tá dentro.

Fui em busca do “Garapa”, filme do José-Tropa-de-Elite-Padilha, mas não estava em cartaz. Já saiu ou ainda nem entrou? Fazia tanto tempo que não ia ao cinema, que nem lembro o último filme a que assisti. Enfim, acabei optando pelo “Simonal – ninguém sabe o duro que dei”. A escolha foi boa, esse cara realmente tinha uma voz fantástica, sem fazer esforço algum. Essa coisa de dom parece que existe mesmo.

Provavelmente, se ele fosse da minha geração, eu não iria muito com o seu jeitão carioca e cafajeste de ser. Isso me irrita um pouco. O Simonal está para a malandragem brasilo-carioca, assim como os irmãos Gallagher (Oasis) estão para a arrogância britânica. Entretanto, ele fazendo o público do seu programa na TV cantar “Meu limão, meu limoeiro”, sem champignon, como ele dizia, é impagável. Agora, se ele foi ou não foi informante do DOPS, durante o período da ditadura, é realmente irrelevante. Acredito que ele tenha errado feio ao acusar o contador de roubo e o ter enviado para uma delegacia, onde foi bastante agredido. A cagada toda foi essa. O ostracismo prolongado da mídia foi um tanto exagerado. Uma coisa é dar um gelo para que a arrogância de alguém diminua, outra, muito diferente, é deixá-lo afundar sua vida por causa disso. E foi o que ele fez… depois de muita bebida e muita depressão, morreu em 2000.

Comecei falando que o dia foi estranho, mas ainda não terminei. Ainda na sala de cinema, recebo a seguinte mensagem, da minha amiga: “O Michael Jackson morreuuuuu! Tô em choque” Como assim? Taí o tipo de coisa que eu não imaginava mesmo que fosse acontecer. Pois é, a gente esquece que todo mundo pode morrer um dia. Qualquer dia. Qualquer um.

E não é que deu uma tremenda vontade de ouvir Jacksons Five?





Metrô. O meu, o seu, o nosso.

5 09 2008

Talvez uma das coisas que mais me irrita em São Paulo é ter que pegar o metrô em horário de pico, tipo 18h. Ontem foi um desses momentos. Lá fora, no segundo dia mais quente do ano, chegamos à temperatura de 32ºC. Ah, sim, e estamos no inverno, queridão. Já deu pra imaginar como vai ser em novembro e dezembro? Pois é.

Enfim, fui toda apressada, como se estivesse numa corrida pra ver quem chega no vagão primeiro, e de fato, não deixa de ser uma corrida. Contra quem? Contra os outros quinhentos passageiros que também querem entrar naquele vagão. Corremos. Corremos e suamos, porque está calor. E os cheiros se misturam com os dos salgadinhos – que alguém decidiu que seria uma ÓTIMA idéia abrir bem ali naquele bafão -, com a fumaça de cigarro que parece que já está dentro em cada um de nós.

O caso ontem foi atípico, mas como já ocorre com uma certa regularidade, parece não mais impressionar. Ao chegar na Sé para fazer a conhecida “baldiação” (nome péssimo), me deparei, logo no meio da escada rolante com um mar humano. E pude ter a incrível sensação de me sentir um saquinho de arroz na esteira de um caixa de supermercado, quando o operador do caixa esquece de desapertar o botão que faz a esteira rolar, e todos nós – o arroz, a bolacha, os tomates e a pasta-de-dente se amontoam, porque não têm para onde ir. As pessoas se trombavam, não havia saída. Até que alguém teve o insight de desligar a escada.

Vem a voz no alto-falante: Em função de usuário na via, na região de Armênia, a circulação do metrô está…..interrompida. 18h25 da tarde. Caos urbano. Só que antes de começar a maldizer Deus e o mundo, eu fiquei pensando: Usuário na via. Suicídio de novo? As notícias que saem sobre isso são muito escassas, não sei se por falta de interesse dos jornalistas, se por bom senso dos mesmos, ou se é o metrô que evita falar sobre isso.

Fiquei um pouco deprimida com tudo aquilo, espremida entre outros tantos desconhecidos, com fome, calor e cansaço. E ainda ter que ouvir comentários do tipo, “Se vai se matar, vai fazer isso em outro lugar. Atrapalhar todo mundo por causa disso.” E devia ser o pensamento de pelo menos metade das pessoas que estavam ali. É cruel, mas é verdade e é compreensível. De um modo estranhíssimo, mas é compreensível. Se você tem que entrar nessa algomeração pelo menos duas vezes por dia – na ida e na volta do trabalho ou da faculdade – sabe como é ser empurrado, chutado e xingado, tudo isso ao mesmo tempo.

As pessoas tem outros padrões e outras prioridades. 5 mortes ou 50, não assustam mais. 500 já pode impressionar. É tudo muito distante e muito banal. De quem é a culpa de tudo isso? Não sei. Das pessoas que estão ali no aperto do metrô, esperando para ir pra casa, é que não é.

Mas poxa, bem ou mal, uma pessoa (possivelmente) morreu ali perto. Não é de sentir, pelo menos, um arrepio no braço? Eu senti.

De qualquer maneira, 5 minutos depois, os trens voltaram a circular, as risadas a ecoar e os salgadinhos a feder. Chega disso. Que horas é a novela mesmo?