Os dentes, o autor e os filmes.

2 02 2010

Enquanto passei alguns dias com um tremendo de um bochechão, dor e vários sorvetes por minuto, por causa da retirada de dois dentes do siso, pude aproveitar a beleza de estar em Pindamonhangaba por mais que um simples final de semana. Realmente, aqui é um ótimo lugar para ficar, às vezes me dói em pensar que passei longos quatro anos morando em um pequeno apartamento no meio de tanto concreto e poluição – e pensar que ainda vou morar por muito tempo nesse esquema, daqui pra frente. Mas o que se pode fazer? Ossos do ofício. É para isso que existem as férias não é mesmo?

Enfim, já que não podia sair pedalando por ai, o melhor que podia fazer era assistir a alguns filmes, e assim o fiz. Desenterrei umas pérolas que nunca havia assistido e foi aí que eu descobri que “E o vento levou…” não é TÃO legal assim…e puxa vida como é longo! Mas já “Casablanca” é bem bacana. Frases de efeito em um clima hollywoodiano preto e branco são incríveis. Mas o melhor é “As time goes by” na voz do pianista Sam. Lindo.

Essa semana também foi curiosa, porque quando fiquei sabendo que J.D. Salinger, o autor de “O apanhador no campo de centeio”, havia morrido. Daí pensei “ele já não estava morto?”. Mas tudo bem, ele vivia tão enclausurado no próprio quarto e tal. Depois li e ouvi uma série de comentários de como o livro tinha mudado a vida das pessoas enquanto jovens, que me deu até uma certa vergonha em afirmar que “O apanhador” não mudou a minha vida. E sim, eu li antes dos 25 anos. É um livro BEM bacana, bem escrito, interessante e envolvente, mas não me identifiquei com o personagem, sei lá… talvez minha rebeldia estivesse adormecida ou de férias. Ou foi porque eu li entre as minhas idas e vindas à Guarapiranga. Estava com a cabeça em outro lugar.

Então, só disse isso, porque também durante o meu repouso do siso, resolvi baixar o filme que conta a história do infeliz do Mark Chapman, aquele que matou John Lennon – pelo o que se conta, o rapaz carregava o livro do Salinger quando assassinou Lennon. O filme, “Chapter 27”, é meio estranho (não terminei de assistir ainda, dormi quase no final ¬¬), a impressão que dá é que você está sufocada, dentro da mente do cara. Pertubador. Apesar de não ser uma pérola, vale a pena conferir…

Chega por hoje, tenho que ir dormir agora.

Até.





Que você não se esqueça de mim.

6 12 2008

Camila Braga

Até onde você vai para permanecer na mente de alguém? Por ditado popular convencionou-se que antes de morrer você deve escrever uma árvore, plantar um filho e ter um livro – não necessariamente nessa mesma ordem, mas acho que deu para ter uma idéia. A tentativa de produzirmos bens que amplifiquem nossa própria existência é algo tentador. Será que é possível atingir meios eficazes para não se passar despercebido pelo mundo?

Claro que as opções são infinitas – e que ninguém desconfie das peripércias da mente humana! Como bem sabemos, tem gente por aí que opta por medidas bem mais extremas, por assim dizer, para poder alcançar o objetivo do não-esquecimento, como por exemplo assassinar alguma personalidade mundial. História que aconteceu com Mark Chapman, o norte-americano que, por conta de matar o beatle John Lennon, hoje tem uma descrição no Wikipédia e um filme-documentário que conta sobre sua façanha, The Killing of John Lennon” (Inglaterra, 2006). “Eu era ninguém até que matei o maior alguém da Terra.” Chapman foi condenado à prisão perpétua. Eternidade finalmente alcançada?

Em terrenos menos dramáticos, encontramos no esporte atletas que buscam a superação a cada novo recorde quebrado, numa espécie de ciclo vicioso. Nas Olimpíadas de Pequim 2008, o nome do nadador Michael Phelps ficou mais do que conhecido, em função da impressionante conquista de suas oito medalhas de ouro. A pergunta é: a rígida rotina de trabalho e os desgastantes treinos têm como objetivo “apenas” uma conquista pessoal, ou seria uma forma de se perpetuar no imaginário coletivo do esporte e das pessoas?

A partir de uma certa idade, o reconhecimento e o orgulho da mamãe parecem não ser mais suficientes; é aí que se corre atrás de fazer algo para que o mundo – ou pelo menos o mundo que não englobe a sua família – saiba que você passou por ele, e que a sua marca foi deixada ali. Se não for possível conseguir por um feito seu, também vale um caminho alternativo, como tentou o nadador sérvio Milorad Cervic, ao disputar uma final com o norte-americano: “Seria bom para o esporte se Phelps perdesse uma prova”. Um pouco menos honrado, mas nada mais lógico, se você não consegue fazer seu nome como um destruidor de conquistas, pelo menos, seja aquele que freia mais uma vitória – e seja conhecido por isso (lembra do ex-padre irlandês que atacou o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, nas Olimpíadas de Atenas? Claro que lembra!). Um pouco anti-herói. Só um pouco.

Sentimento parecido deve ter sentido Andrada, o goleiro argentino do Vasco que estava cara-a-cara com Pelé, na hora que o Rei bateu o pênalti e completou seu milésimo gol. Se Andrada tivesse segurado aquela bola, em pleno Maracanã, seu nome iria entrar para a história como o goleiro que impediu o gol de número mil do Rei do Futebol.

Como adoramos classificar e nomear todo e qualquer evento, acontecimento ou situação, se você, meu caro, tende a sentir um certo friozinho na barriga só de pensar na idéia de ser esquecido ou ignorado, saiba que há um nome para tal pensamento: atazagorafobia. Se agorafobia pode ser entendida como uma certa ansiedade em determinados lugares e situações, com a junção do sufixo “ataza” concluímos que, ao atazanarmos tudo e todos que vemos pela frente, encontramos uma maneira de estarmos presentes e não ficarmos sozinhos, ansiosos e esquecidos. O ser-humano é realmente uma engenhoca brilhante, não?