TCC represa da Guarapiranga: a arte final.

19 11 2009

Com relatório final pronto e reportagem na gráfica, posso voltar a pensar em ter uma vida social.

Queria compartilhar com vocês a arte das três partes da reportagem: água, terra e homem.

Os créditos do planejamento gráfico vão para o Fernado Kataoka (mais conhecido como cara-torta…hehe), não faria nem 1/5 disso sem ele. Obrigada mesmo!

Água

Terra

Homem

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Diário de bordo – TCC represa do Guarapiranga – parte 1

29 06 2009

Foto por Camila Pastorelli

17 de junho de 2009

“Tem gente que mora aqui e nunca foi para o centro”. Depois de um percurso de quase duas horas que teve início na rua da Consolação, no centro da capital paulista, chegou até o Terminal Santo Amaro, e passava pela estrada do Rivieira, na zona Sul, a conversa entre os passageiros da lotação 6028 – Rivieira mostrava que a questão da moradia não era apenas de meu interesse.

A senhora de fala alta e despojada, com o filho ainda criança, comenta com o homem sentado ao seu lado, sobre como está difícil e caro encontrar casas para alugar por ali e diz também que só sai do bairro se for para morar no centro da cidade ou voltar para o norte – só que nesse caso, não o da cidade, mas o do país.

O caminho que o ônibus percorre até a região da represa do Guarapiranga – cerca de 30 quilômetros da zona central -, mostra as diversidades de uma cidade que não é apenas uma, e sim várias. O quase silêncio que reina entre os passageiros da avenida Paulista, concentrados em seu próprio livro, sono ou música no fone de ouvido muda a medida que o circular roda pelos emaranhados de asfalto a perder de vista.

O ar vai ficando mais puro e o cheiro do vento, antes ora com toques de fumaça , ora esgoto, fica mais gostoso de ser sentido. Da mesma forma, as pessoas, já sem os fones de ouvido, conversam e riem entre si. A pequena lotação transporta quase sempre conhecidos – vizinhos, talvez – que cumprimentam a cobradora e falam para ela passar o recado, “Pede para a sua mãe me ligar… quero ver se desocuparam a casa mesmo, porque o Cláudio tá querendo alugar.”

Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo. Sim, porque eu ainda quero o meu diploma.





Jornal sem jornalista.

19 06 2009

O curso de jornalismo chegou a um estado tão ruim, que fez com que as pessoas passassem a acreditar que ele já não é mais necessário para a profissão. Pois foi isso mesmo que se discutiu: a necessidade ou não do curso de jornalismo, e não a de um simples diploma. Diploma é apenas o pedaço de papel que somos autorizados a segurar depois de quatro – para alguns mais – anos de universidade. E olha só que surpresa! O problema está onde? Na educação. Ela de novo.
Esquecemos – e me incluo nessa – de qual é a postura de um profissional de jornalismo. Esquecemos que não é só saber escrever bem e ler muitos livros; esquecemos que não é só ouvir os dois lados da história; esquecemos que não é só traduzir os jargões dos especialistas; esquecemos que não é só alimentar o ego ao ler nosso nome acima de um texto. É tudo isso junto, e mais a responsabilidade com a informação que você tem na mão.
E na faculdade não lembramos dessas coisas. Por isso, fazemos com que quem está de fora pense que, com faculdade ou sem faculdade, o profissional é o mesmo. Não é.
Até ontem, era muito fácil ser um jornalista medíocre. Tão fácil, que muitas vezes nós somos. Hoje, a situação ficou um pouco pior. Que pena.





A moda agora é cultivar olheiras.

6 04 2009

Não bastassem todas as inconveniências dessa vida de meu Deus, surge esse último ano de faculdade com o divertidíssimo trabalho de conclusão de curso. Só alegria por aqui. E  sim, estou tratando de cultivar um lindo par de olheiras, assim como muitos de meus colegas. Acho que já até acostumei com os estudos na madrugada, que acabo rendendo mais depois das 00:00 am, acreditam? Um absurdo. Mas vai valer à pena, o trabalho tá ficando bonito, composto e encorpado. Yeah!

Entre um fichamento e outro, e uma pesquisa e outra, me aventuro para o Arquivo do Estado de São Paulo, em busca de jornais do período que vou analisar – sim, além da pesquisa e da peça jornalística, inventei uma análise de mídia. Sabe como é, só para dar um charme a mais.

O que eu acho incrível nesse lugar – além da organização e da quantidade de material que tem por lá – é esse espírito que baixa na gente, de jovens pesquisadores. Você fica lá, com seu crachá e sua luvinha para não sujar as mãos (às vezes, até uma máscara! Dependendo da situação lamentável do material), analisando documentos antigos. Não tem como resistir.

Mas como nem tudo nessa vida são estudos, existem aqueles momentos nos quais você se distrai com uma notícia ou outra nos idos de 1991, como foi o caso da seguinte manchete: “Amante morde a língua de operário”. COMO ASSIM?? Pois é, o cara brigou com a amante, deu-lhe uns tapas, e depois resolveu fazer as pazes. Mas no exato momento do beijo, a jovem não teve dúvidas: Arrancou um pedaço da língua do traidor. A matéria dizia que ele chegou no pronto-socorro gritando e com a boca sangrando. Depois falam que é em jornal do interior que tem notícia desse calibre. Uhmmff.
Enfim, me diverti à valer – entre o nascimento de um ornitorrinco e a inauguração da linha verde do metrô, em São Paulo.

Só para não dizer que não provei nada disso que escrevi, selecionei uns recortes – não tão legais quanto os da amante carnívora -, do ano de 1975. Precisei de umas matérias da Folha de S. Paulo desse ano para quando fiz a iniciação científica, e como estava com a câmera em mãos – diferentemente dessa última vez que estive no Arquivo -, aproveitei e tirei umas fotos de momentos marcantes da década de 70.

E quem disse que jornal não serve para nada?

Suicídio? Quanta bobagem...

Suicídio? Quanta bobagem...

João do Pulo: De Pinda para o mundo.

João do Pulo: De Pinda para o mundo.

Mackenzie dominando o quarterão de Higienópolis.

Mackenzie dominando o quarterão de Higienópolis.

O AB Toner dos anos 70.

O AB Toner dos anos 70.

Mais um pouco e vira um deserto mesmo.

Mais um pouco e vira um deserto mesmo.





Com diploma ou sem diploma?

5 04 2009

Acho que tudo acaba em piada mesmo em 1º de abril. A votação no Superior Tribunal Federal que iria decidir a respeito da Lei de Imprensa e da obrigatoriedade do diploma foi adiada para o dia 15 de abril. No final do ano passado, quando a discussão retomavamais um momento de exaltação, fiz um texto para uma discilpina do curso a respeito de todo esse “para ser jornalista, tem que fazer faculdade?”. Queria compartilhar aqui, até porque continuo com o mesmo pensamento, e depois da Páscoa tem mais.


diplomajornalista

 

Quando se inicia num curso superior para se tornar jornalista, logo surge a pergunta se o calouro gosta de ler e de escrever. Prontamente, todos respondem que sim e que foi esse um dos motivos que os ajudaram a escolher essa profissão. Entretanto, sabemos que por mais que esse seja um argumento válido, não é isso que faz de uma pessoa um profissional da comunicação. Ler muito e escrever bastante faz de você uma pessoa melhor, mais cidadã, mais consciente dos seus direitos e dos direitos das outras pessoas, o que pode fazer com que você, eventualmente, se inquiete com algumas questões do seu país ou de outros países.

 

Esse sentimento de inquietação é sim uma das características fundamentais de um jornalista, mais do que gostar de ler e escrever. Só que também não basta apenas isso, é preciso ir além: procurar informações, procurar pessoas, ouvi-las, pesquisar sobre o assunto, checar diferentes informações, confrontar dados, checar de novo as informações, obter uma diversidade de visões e, por fim, montar um texto que deixe toda essa pesquisa sobre um tema, claro, acessível e coerente.

 

Em razão de todo esse trabalho – que não se nasce sabendo – é que defendo a obrigatoriedade da formação superior para o exercício da profissão jornalística. Gostar de ler e escrever é um dos pressupostos para ingressar no curso, mas a partir daí, uma série de novas competências devem ser aprendidas e trabalhadas para que se forme um bom profissional, que irá lidar não somente com dados e informações, mas com pessoas e com histórias de vida.

 

Essa é a parte utópica que existe em toda profissão – médicos querem salvar vidas, advogados querem que a justiça prevaleça. Entretanto, ao ingressar num curso de jornalismo, sabemos que a realidade que temos é um pouco diferente. Alunos muito novos e sem maturidade para decidir se essa é realmente a melhor profissão para si; falta de interesse em se aprofundar nos estudos teóricos; grades curriculares muito boas, mas que na prática expõem professores desanimados ou mal preparados para ensinar; falta de interação entre o mundo acadêmico e o mercado de trabalho.

 

Assim, é fácil bradar que as universidades não formam um bom jornalista para atuar nos meios de comunicação e que a obrigatoriedade do diploma para essa função é desnecessária. As universidades não formam mesmo, aliás, melhor dizendo, não formam sozinhas, uma vez que mais da metade dessa formação tem que partir do aluno. A universidade tem que mostrar o caminho, não carregar no colo. Bons cursos sabem mostrar o caminho e instigam o aluno a seguir por ele, já os cursos ruins não o fazem, e jogam para o mercado “fazedores de texto com deadline” ou “fazedores de texto institucionais”.

 

O que acredito que se deve analisar ao se discutir sobre o diploma de jornalista é a respeito da qualidade dos cursos, ou seja, a discussão se amplia para um problema que o país atravessa (e que não é de hoje): educação. Temos que voltar os olhos para o ensino fundamental e médio. Como eles vêm formando os jovens brasileiros? Através do uso do raciocínio e da criatividade ou através do copia-aí-o-que-eu-escrevo-aqui-que-você-passa-de-ano?

 

Pois o ensino superior não faz milagres, não vai formar um jovem de 20 anos e deixá-lo apto, como cidadão e profissional, para ingressar no mercado de trabalho. Acredito na necessidade da experiência acadêmica e na sua obrigatoriedade para exercer o jornalismo e qualquer outra profissão, mas para isso, os nossos olhos têm que se voltar para a revisão na educação, e não na sua conclusão formal, o simples diploma.





Such Thing as Eternal Happiness Does Not Exist.

14 02 2009

Nos últimos tempos tenho criado teorias pessoais para aquelas coisas que não dão muito certo na vida. Já culpei o final do ano, já pensei em inferno astral pré-aniversário e já maldisse os anos ímpares. Tudo isso é um bando de besteira.

 

Existem alguns textos, livros ou músicas que conseguem ter um efeito devastador em mim – no bom e no mau sentido. Clarice Lispector é um deles. A maneira que essa mulher escreve e narra devaneios psicológicos é algo que mexe com cada fio de cabelo da minha cabeça. E me influencia no modo de ver o mundo e na minha forma de escrever. Há tempos que não a visito.

 

Essa semana, realizei uma belíssima aquisição. Do tipo que balança a nossa vida e que dá vontade de mostrar para todo mundo poder conhecer também. O Olho da Rua, mais novo livro da jornalista gaúcha Eliane Brum, é uma coletânea com as dez melhores reportagens dela realizadas para a Revista Época. Todas vêm com textos da Eliane, comentando os “bastidores das notícias”.

 

O livro tem uma história – entre várias outras ótimas – que me chamou especial atenção. O inimigo sou eu. Uma reportagem na qual a jornalista passou dez dias em um retiro de meditação Vipassana. Está disponível também no site da Época, como acredito que todas as outras estejam. Algumas frases são muito bem feitas e eu quero compartilhar aqui com vocês:

 

“A idéia básica está presente em diferentes linhas do budismo: o que nos faz sofrer é o apego. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego – ou seja, não cobiçar o prazer nem sentir aversão pela dor –, a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é impermanência. Que nada dura, nem o prazer nem a dor.”

 

Essa história me lembra um pouco o filme O Curioso Caso de Benjamin Button, a linda e original história de amor, que tem como antagonista o tempo. Ele nos mostra o óbvio, sem ser óbvio: a vida é efêmera e impermanente. A perfeição, na verdade, não existe. E a busca por ela faz com que nós nos percamos na não-apreciação do presente imediato. Isso só traz o sofrimento.

 

Por que comecei falando das teorias pessoais e da Clarice no começo, se queria falar apenas de um livro? Bom, o meu propósito aqui é dizer que eu estava enganada a respeito de algumas coisas pelas quais vinha surtando nos últimos tempos. Tenho certeza que esse ano, apesar de ímpar, vai ser marcante e decisivo na minha vida. Quero fazer dele um acúmulo de fatos inéditos. Até o momento, tenho conseguido.

 

E, especialmente hoje, agradeço à Eliane Brum por esse livro (E me culpo de não tê-la conhecido antes, pelo simples folhear de uma revista). Ele é inspirador. Que todos nós, futuros jornalistas, consigamos ter um terço da sensibilidade e da imersão de seu texto. E va a napoli  todo o papo de objetividade e imparcialidade jornalística:

 

“Nossa época acredita que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor, física ou psíquica. Não ter dor se tornou quase um direito. Basta uma pontada na cabeça, que já corremos a tomar uma pílula. Basta uma tristeza real, para que imediatamente nos ofereçam um antidepressivo. Não queremos menstruar nem ter dor de parto, qualquer desentendimento com o chefe acaba com nosso dia, desistimos de um amor no primeiro percalço, por acreditar que merecemos a felicidade eterna. Não podemos nem sentir calor ou frio, para isso há ar-condicionado. Parece que não queremos é viver.”





Salvador, o pecador?

26 08 2008

“Mãe, roubar é pecado?”. A pergunta que o pequeno Salvador havia feito dias antes, parecia mais latente do que nunca, agora que ele se encontrava na fila da lanchonete da escola, sem o dinheiro que ela lhe dera para pagar o sanduíche. A fome fala mais alto que a culpa e Salvador parte em busca de um lugar seguro para apreciar seu lanche. No entanto, as forças divinas parecem não sair tão facilmente da cabeça do jovem protagonista de “Sob o Olhar de Deus” (México, 2007). Curta exibido no 19º Festival Internacional de Curtas-Metragens, que acontece em São Paulo até sexta-feira, dia 29/08.

Com um humor leve e uma atuação cativante do jovem ator Mercel Mercheyer, o curta dirigido por Adolfo Franco levantou risos e aplausos da platéia em sua exibição no Espaço Unibanco Augusta. As cômicas tentativas de Salvador encontrar um lugar que consiga apreciar seu almoço terminam exatamente no alto de um morro, onde está uma estátua de Jesus Cristo – naquela posição “a la” Cristo Redentor.

Só que o coração do jovem “pecador” não consegue resistir a um mendigo que busca comida no lixo. Assim, como se já se mostrasse derrotado pelas forças celestiais, entrega seu lanche para o esfomeado, que agradece cantando: “Jesús Cristo, Jesús Cristo, Jesús Cristo, yo estoy aquí”. Um afinado mendigo com uma voz conhecida dos brasileiros. Opa, mas não é mesmo a voz do Roberto Carlos? Pois é, o morro todo se enche de bailarinos que dançam ao som da música do Rei. A cena musical surrealista encerra com chave-de-ouro o curta mexicano, e nos faz lembrar de outro, só que dessa vez brasileiro, que também segue a linha “Por-que-não-vamos-todos-dançar-e-cantar-juntos-agora?”, o curta dirigido por André Moraes, “Ópera do Malandro” (Brasil, 2007).

Por fim, temos um Salvador aliviado e tranqüilo, sem o peso de ter cometido um pecado divino. Só resta depois dizer para a mãe que perdeu a nota de 20 pesos que ela lhe dera para comprar o lanche. Mas aí já é outra história…

Confira o trabalho dos colegas no blog do Crítica Curta, projeto paralelo do Festival

com estudantes de jornalismo.