Para conhecer Machu Picchu – parte 2

30 07 2012

A famosa Machu Picchu

O nosso simpático guia nos levou até um ponto, onde ele disse ser o mais famoso para as “fotos de facebook”. Todas as fotos que vemos espalhadas pela internet e afins, são feitas ali. O único problema era que não víamos nada da paisagem. A neblina ainda estava forte e não conseguíamos nem saber em que direção estava a famosa Huayna Picchu.

O complexo de Machu Picchu está a 2.450 metros de altitude e apesar de já ser conhecido pela população quéchua da região andina, foi “descoberto” para o resto do mundo em julho de 1911, quando o historiador americano Hiram Bingham, guiado por um garoto quéchua, encontrou o lugar. As ruínas estavam cobertas por vegetação e foi necessário um bom tempo para limpar toda a área e começar o seu mapeamento.

Detalhes da cidade inca

A “vieja montaña”, tradução das palavras quéchuas para Machu Picchu, é uma cidade inacabada. Sua construção teve que ser interrompida, em função de uma provável invasão que impossibilitou o término da cidade. Se pararmos para pensar que o que vemos hoje é apenas uma cidade incompleta, só podemos imaginar como eram as impressionantes construções finalizadas, como a própria cidade de Cusco, considerada a capital Inca da época.

Machu Picchu está dividida em duas partes: a região agrícola e a urbana. E como em outros sítios arqueológicos, podemos conferir a incrível organização e o cuidado com o solo e arquitetura com as pedras. Encaixes perfeitos formam casas, praças e santuários – como o Templo do Sol, bem ao centro. As três janelas também merecem destaque por representarem três dos símbolos caros à cultura inca: o condor (habilidade), o puma (força) e a serpente (inteligência). Essa mesma simbologia pode ser vista na própria cidade de MP: o puma seria Huayna Picchu; o condor seria a pequena montanha ao lado e a serpente, o contorno do rio Urubamba, que passa logo abaixo. Toda a história e a simbologia envolvidas em torno do parque podem – e devem – ser mais aprofundadas em futuras pesquisas e, quem sabe, novas visitas ao local. Ah, e não faça o tour sem um guia, pois o passeio perde a metade da importância.

Guia durante o passeio

Todo o grupo reunido

Com o guia, percorremos quase todos os caminhos de MP. Havia muita gente também no local, o que acabava tumultuando alguns dos pontos, já que havia outros guias falando ao mesmo tempo. Mas tudo isso faz parte, nem se estresse.

Havia chegado a hora de subir Huayna Picchu. Eu ainda estava um pouco na dúvida se daria conta, mas depois de ser convencida pelos outros que iam também, e pelo próprio guia, que disse ser um trajeto tranquilo, decidi encarar mais essa. E olha que eu não me perdoaria se tivesse deixado essa oportunidade escapar, pois a vista lá de cima compensou tudo!

Momentos antes de subir

De acordo com o guia, os incas que ali viviam, subiam Huayna Picchu para passar algum tempo longe da civilização com o objetivo de meditar e buscar iluminação espiritual. Os cerca de 200 metros são subidos com certa dificuldade por aqueles mais sedentários que vivem longe dos Andes (tipo, eu). A altitude, novamente, é sentida com o menor dos esforços – Huayna Picchu está a 2.667 metros de altura. Mas como eu já estava preparada – levei meu saquinho com folhas de coca para mascar no caminho – não foi nada muito absurdo. Com algumas paradas estratégicas para tomar fôlego, consegui completar o caminho sem grandes problemas.

Logo no começo da trilha, o primeiro susto: a equipe médica local trazia uma pessoa em uma maca. Pronto, o primeiro pensamento foi “quem morreu?”, nos perguntávamos num misto de humor negro e real preocupação. Felizmente, a turista havia “apenas” escorregado e batido a cabeça, e estava bem. Fiquei com pena dos dois homens que levavam a maca, pois se subir aquela montanha sozinho já é um esforço, imagina nessa situação?

Perguntei para a médica da equipe se ela ia voltar, pois talvez precisássemos dela, mas ela apenas riu e desconversou – e olha que eu não estava brincando(!).

Turista sendo levada na maca

Subi junto com dois brasileiros e um alemão, todos de nosso grupo inicial. Eles iam na frente e eu, a passos lentos, fazia o meu tempo. Todos os degraus são esculpidos na pedra, alguns curtos, outros bastante altos. Uma corda de aço foi colocada no caminho para servir de corrimão, o que ajuda bastante em vários momentos. Somente em algumas partes não há essa ajudinha extra – daí o esquema é contar com os joelhos mesmo.

Trajetos da trilha

Sempre que via um casal de idosos descendo, perguntava se o topo estava próximo, e eles diziam que sim! Daí que me animava mesmo. Levei por volta de uma hora para chegar até ao cume. O tempo, em média, é esse mesmo, entre 45 minutos e uma hora e meia.

Havia levado um sandubinha e mais algumas bolachas para comer lá em cima. Foi um piquenique nas alturas, minha gente. Coisa fina. Tiramos muitas fotos e apreciamos aquela paisagem incrível. A cidade de Machu Picchu lá embaixo e a imagem dos turistas como formigas em um formigueiro, parecia surreal. As montanhas por todos os lados, mostravam um vale de beleza e paz únicas. De fato, deve haver algo de energético com essas montanhas. A minha vontade foi fazer como os quéchuas da época e passar algum tempo lá em cima para aproveitar mais do lugar. O amanhecer ali deve ser algo de outro mundo. Quem sabe numa próxima, não me empolgo e faço também a tal trilha inca?

No topo!

Vista impressionante

Para os mais animados, lá em Huayna Picchu, ainda há uma trilha extra para o Templo da Lua, o que leva mais alguns minutos e esforço, que decidi não encarar para, de novo, não acabar com o joelho. Ainda tinha a volta para fazer e não estava a fim de descer de maca. Há quem diz que não há nada de mais nesse templo, mas se você estiver com tempo e disposição, por que não?

A descida foi também tranquila – só é importante prestar mais atenção para não relaxar de uma vez, pensando que “a descida é fácil” e acabar se machucando. Saí de Huayna Picchu com o espírito renovado e feliz da vida por ter feito essa trilha.

Já no “térreo”, voltamos para alguns dos pontos já visitados anteriormente com o guia, só para aproveitar mais um pouco do lugar e tirar as últimas fotos. Simplesmente, um passeio inesquecível!

Ah, ainda estávamos com sorte: Machu Picchu estava no ano do centenário de seu descobrimento e, por isso, podíamos carimbar nossos passaportes com o selo comemorativo. DEMAIS! Passeio concluído com mais sucesso, impossível. Por volta das três horas da tarde, voltamos para o hostel. Tomamos um banho e fizemos uma horinha no restaurante do hostel, com uma porção de “choclo con queso” até dar sete da noite, quando partia o trem para Ollantaytambo.

Por volta das nove da noite, chegamos ao povoado e tentamos achar o motorista do ônibus, que nos levaria de volta ao hostel em Cusco. Momento de confusão pura: muitos e muitos guias e motoristas. Eles levavam plaquinhas com nossos nomes. Na plaquinha, eu era a Camila Lourenço. Levou quase meia hora para acharmos todos os nomes e subirmos no ônibus. De novo, o transtorno faz parte, minha gente. Abraça a aventura e vai.

Em pouco menos de duas horas, estávamos de volta a Cusco. Cansados, mas com muita história para contar.

Última foto antes de ir, feliz da vida!

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Cusco, umbigo do mundo – parte 1

19 04 2012

10/jan

Depois de Puno, Cusco foi a segunda cidade peruana que fiquei hospedada – e adorei. Hoje, com seus 300 mil habitantes, Cusco – ou Qosqo – sabe trabalhar bem com todo o tipo de turista. Desde aquele que vem para conhecer mais da cultura Inca, entre passeios diários ao Valle Sagrado ou aqueles que chega com destino certo a Machu Picchu.

A antiga capital do Império Inca era chamada de “umbigo do mundo” e ainda guardou muito da arquitetura, história e cultura tão bem criadas pelo seu povo, apesar dos colonizadores espanhóis.

Obviamente, que cheguei ali já pensando em Machu Picchu. Havia pesquisado muito pela internet, na tentativa de encontrar a melhor maneira de chegar até MP. Não havia ficado segura de ir por conta própria, então optei por fechar um pacote com a agência de turismo do hostel Loki, mesmo hostel que fiquei em La Paz. E foi a melhor coisa que fiz.

Bom, primeiro: foi o hostel mais legal que conheci na viagem. Organizado, limpo, equipe super bacana e prestativa e o bar mais animado das redondezas (!). Além de também servirem almoço e jantar, com bons preços, e ótima qualidade. Enfim, adorei. Na noite que cheguei estava rolando uma festa no bar, mas como não conhecia ninguém, acabei ficando pouco. Conversei com alguns brasileiros que estavam no mesmo ônibus Puno-Cusco que eu (curiosamente, encontrei com eles em mais vários outros momentos) e comecei a preparar meu próximo dia. Um dos caras do bar anunciou que, no dia seguinte, eles iriam a um dos orfanatos da cidade para que, quem tivesse o interesse, pudesse conhecer mais da situação local, brincar um pouco com as crianças, etc. Infelizmente, essa visita acabou não rolando por alguma confusão com o transporte que nos levaria até lá.

Bom, com as mudanças de planos, resolvi começar a andar pela cidade. De acordo com meu guia, e com algumas indicações de amigos que já haviam ido para Cusco, era ideal comprar o tal do boleto turístico (vendido na prefeitura), para me dar direito a entrar em diversos sítios arqueológicos do Valle Sagrado + museus e outros pontos turísticos por nove dias. Realmente, vale a pena comprá-lo (130 soles – algo em torno de R$90). Pode parecer caro, mas no fim, é mais vantajoso, porque uma vez que você está ali, vai acabar querendo conhecer esses lugares e se optasse por comprar as entradas, em separado, sairia mais caro. Lógico, né?

O centro de Cusco se concentra na Plaza de Armas, onde estão a famosa Catedral, de 1556 (que você paga para entrar, mas se for – discretamente – entre 6h e 8h da manhã, horário reservado para a missa, não pagará; foi o que fiz) e a Igreja Sagrada Família, de 1733. Na catedral, você poderá ver a curiosa “Última ceia”, pintada pelo pintor peruano Marcos Zapata, que dá um toque regional para o quadro ao acrescentar alimentos como milho e  mamão na ceia de Jesus e companhia. Há também a escultura de um Jesus Cristo negro, “El señor de los Temblores”. Muito bacana.

Fui até o templo Qorikancha – Templo do Sol (atual Convento de Santo Domingo), para conhecer um pouco mais da cultural inca. Peguei carona em vários guias que iam explicando para grupos escolares e turistas as principais características da arquitetura, agricultura e adoração aos deuses na época do Império Inca.

Os incas acreditavam que existia um deus maior que o Sol e que a Lua. Nunca o viram, por isso não sabiam bem como representá-lo, entretanto confiavam em sua existência. Seu nome é um pouco complicado: Uiricochan Pachayachachi – ou simplesmente – Wiraqocha. Seu templo ficava em Raqchi, cidade que estive antes de chegar em Cusco.

Caminhei mais um pouco e fiz uma parada estratégica na farmácia para comprar antiflamatório. Meu joelho doía e não era brincadeira. Confiei na indicação da farmacêutica e achei curioso saber que poderia comprar os comprimidos avulsos. De qualquer forma, comprei a cartela inteira, já que precisaria tomar por mais de um dia. Depois aproveitei e comprei um bastão de caminhada, meu amigo inseparável dos próximos dias até Machu Picchu.

Chegou a hora do almoço e parei em um pequeno restaurante, super simples, no qual pude comer o tradicional pollo com papas fritas, acompanhada de uma Inka Cola bem gelada e amarela. Tudo isso por 13 soles. Os correios ficavam bem em frente e já aproveitei para comprar alguns postais e mandar para a família e alguns amigos – era aniversário da minha mãe nesse dia!

Depois do almoço, passei pelo Museu Histórico Regional, muito interessante, por sinal! Tirei foto dessa frase do Mario Vargas Llosa, que achei muito linda:

O dia estava quase acabando e depois de passar por um grupo de músicos que tocavam na rua (veja o vídeo aqui), acho que eram estrangeiros, estava seca por um café. Claro, o forte aqui é o chá, quase não tomei café na viagem! Mas nesse lugar que encontrei, o café era dos bons. Ainda pedi um bolo de chocolate com doce de leite para acompanhar e fui surpreendida quando ele veio quentinho e com duas bolas de sorvete de creme. Pronto, tava feliz da vida. Se não me engano, o nome do lugar era Café del Inka.