A incrível obra de Antanas Sutkus – olhares da Lituânia

13 11 2014
Foto: Antanas Sutkus

Foto: Antanas Sutkus

 

Eu conheci o trabalho do fotógrafo lituano Antanas Sutkus em 2013, quando visitei – completamente por acaso – o último dia da exposição na Caixa Cultural, que rodou o Brasil por dois anos. Apesar de pouco conhecido no Brasil, o fotógrafo tem uma obra impressionante e delicada retratando principalmente o cotidiano de seu país quando ele esteve sob o domínio do governo soviético, de 1939 a 1941 e depois de 1944 a 1991.

Sutkus teve sua obra censurada pelo regime, pois retratava a população de uma forma que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) não estava de total acordo, uma vez que ia contra a sua propaganda de grandiosidade e potência econômica. Apesar da censura do governo, as imagens de Antanas Sutkus não exploravam cenas de denúncia e terror; muito pelo contrário, suas fotografias falam da vida do homem comum, com suas alegrias e tristezas, registradas pela sensibilidade de um homem também comum, que teve a oportunidade de contar histórias por meio de sua câmera.

E foi assim que decidi fazer minha monografia da pós-graduação em Fundamentos da Cultura e das Artes (Unesp) sobre o trabalho do Antanas. Durante todo o processo de pesquisa (apesar dos vários contratempos e bloqueios criativos), tive a chance de entrevistar o fotógrafo por email, com a ajuda de sua esposa Rima Sutkiene, além de conhecer mais sobre a história da Lituânia e seu povo. Fiquei muito satisfeita com o material que reuni e estudei.

Por isso, é com muita alegria que compartilho aqui a versão final da monografia para que fique disponível a todos aqueles que se interessam por fotografia documental, mas também a aqueles que gostam de conhecer grandes fotógrafos. Antanas Sutkus é um desses nomes e precisa ser conhecido, suas fotografias são mais do que inspiradoras.

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De repente.

24 11 2009

A vida tinha que ser assim. Uma sequência de coincidências e oportunidades que aparecem quando você menos espera.

Hoje foi um dia muito rápido, cansativo, aliviante e inesperado, de diversas maneiras.

Finalmente, entreguei meu TCC para a banca. Detalhe: a reportagem chegou hoje mesmo da gráfica. É, se não tivesse emoção, não teria graça.

Falei ao telefone, super sem querer, com a jornalista que convidei para estar na minha banca. Espero que dê certo.

Fui convidada para ir em um evento bem bacana amanhã na Sala São Paulo. Acho que vou gostar bastante.

Resolvi entrar na Livraria Cultura, às 21h45 (a loja fecha às 22h), para tentar comprar um presente de aniversário para a minha irmã (Parabéns, Jubas!). Eis que estava tendo uma sessão de autógrafos com o americano Benjamin Moser, um apaixonado pela obra da Clarice Lispector. Já havia lido boas críticas do livro que escreveu da autora, “Why This World – a biography of Clarice Lispector” (lançado no Brasil como, “Clarice, uma biografia”) – saiba mais aqui. Mas, com toda certeza, não esperava encontrá-lo ao vivo, a cores e a poucos metros. Não tive dúvidas: comprei o livro e fui pedir o autógrafo.

Na fila, já tentava pensar em frases não muito toscas em inglês para conversar com ele, quando o ouvi falando um alto e claro português. Ufa. Deixei para treinar o meu “fantástico” segundo idioma um outro dia. O escritor, bastante novo (33 anos), foi bem simpático e me disse que já está com saudades do Brasil. Ele parte amanhã para o Rio e depois para outros estados, em função da divulgação do livro, entretanto volta depois para a Holanda (se não me engano), país que mora.

Benjamin conheceu o Brasil quando tinha 19 anos e passou um semestre na PUC do Rio. Foi aí que melhorou seu português (uma das seis ou sete línguas que fala). Depois de cinco anos de pesquisas, veio com o livro de Clarice.

Benjamin Moser

 

Fiquei toda feliz com o meu livro autografado (não foi uma das aquisições mais baratas, mas o Natal está aí, não é? Alegria, alegria!) e não vejo a hora de começá-lo. Clarice é uma das minhas autoras prediletas e os textos que mais se aproximam de uma espécie de “autobiografia” são os que acho mais bacanas. Esse livro vai me cair bem. Principalmente, nessa época. Final de ano. Final de curso. Finais. Odeio finais. E Clarice sempre me atinge de uma maneira muito estranha. Às vezes, faz muito bem, às vezes, muito mal. Vai entender.

Ah, e quase esqueci! Enquanto pegava um livro para ir para a fila de autógrafos, um simpático senhor me perguntou se era mesmo o autor que estava assinando a obra, ou se era o tradutor. Afirmei que era o autor mesmo. O senhor perguntou se o livro era bom. Respondi que parecia ser muito bom. Depois a conversa continuou e ele quis saber se fazia Letras.

– Não, jornalismo.

– Ih, filha, sou jornalista há quase 40 anos e não posso deixar de concordar com uma frase que li uma fez: uma pessoa que mata um jornalista sempre o faz em legítima defesa.

Desconversei um pouco, disse que não era bem assim. (Me formo esse ano, poxa! Tenho que ter um pouco de amor próprio). Mais alguns minutos de conversa e o senhor virou para mim e disse: “Você não vai ser jornalista, acho que vai ser escritora”. Depois de rir um pouco, falei que talvez não, afinal, gosto mais de fotografia. Perguntei o que ele fazia agora, já que não dava mais aulas. Ele afirmou que escrevia. Já tinha alguns livros publicados e ia lançar mais outro essa semana. O convite informal foi feito, agora espero a confirmação por email que ele ficou de mandar. Ficarei no aguardo.

Depois de tudo isso, para acabar a noite, entro em casa e descubro que uma das cartas que estava aguardando, finalmente, chegou. Mas essa só vou poder contar depois.

Sim, foi um dia rápido e inesperado, e foi ótimo. Que ele se repita em breve.





TCC represa da Guarapiranga: a arte final.

19 11 2009

Com relatório final pronto e reportagem na gráfica, posso voltar a pensar em ter uma vida social.

Queria compartilhar com vocês a arte das três partes da reportagem: água, terra e homem.

Os créditos do planejamento gráfico vão para o Fernado Kataoka (mais conhecido como cara-torta…hehe), não faria nem 1/5 disso sem ele. Obrigada mesmo!

Água

Terra

Homem





Diário de bordo – TCC represa da Guarapiranga – parte-quase-final (contagem regressiva)

9 10 2009

foto por: Camila Pastorelli

7 outubro de 2009.

Nunca achei que esperar pelo Sol pudesse demorar tanto. Depois de semanas torcendo para que as nuvens nimbus dessem um tempo para o mau tempo, consegui ver o céu azul na última manhã de quarta-feira. A razão? Precisava fotografar as águas da Guarapiranga durante o monitoramento semanal feito pela Sabesp. E para isso, o céu e o reservatório de São Paulo deveriam estar facilmente identificáveis, e não uma espécie de brancura sem fim.
Pois bem, às seis da manhã o céu estava extremamente azul com raios solares radiantes. Nem acreditei, e por isso, tratei logo de me aprontar para a sessão de fotos aquáticas. O sol brilhava tanto que na rádio, a repórter avisava “o motorista que trafega pela marginal Tietê encontra lentidão em função do Sol forte”. Onde já se viu sol ser motivo de trânsito? Essa cidade está perdida mesmo.
Para a minha tristeza, com a mesma intensidade que a manhã ensolarada chegou, ela foi embora, trazendo as nuvens de volta. OK, mas não tinha mais jeito, já estava lá na beirada da barragem, ao norte do reservatório, de câmera em punho e frio pelo todo o resto do corpo e iria completar a minha missão do dia.

“Você trouxe blusa?” – perguntou o simpático funcionário da Sabesp
“Ãhn…não.” – respondi.
“Shii….nem capa de chuva?” – insistiu ele.
“Ãhn….não.” – eu, de novo.
“Uhmmm….vai passar frio, hein?” – ele, tirando um sarro com a minha cara.
“Que isso, eu agüento. Gosto de vento!” – Camila, uma tolinha.
“Hahaha…já vou avisando, lá é bem frio, ainda mais com esse tempo.” – Jorge, mais experiente do que eu.

Jorge, durante a coleta de água.

Jorge, durante a coleta de água.

Achei melhor aceitar a capa de chuva que me arrumaram. Sabe como é, não sou uma explorada da natureza orgulhosa. E foi a melhor decisão que tomei. Tava um tremendo de um vento maravilhoso, que foi muito bem aproveitado com toda a proteção que a cobertura artificial da capa de chuva pode oferecer.
O passeio até que foi rápido, cerca de 40 minutos. Com um pequeno barco a motor, passamos por 5 dos 7 pontos que a Sabesp monitora na represa a cada 3 dias. Nas margens da Guarapiranga se vê de tudo, entre nobres e pobres. Casas com garagem para jet skies e barracos de madeira. Pude aproveitar bastante. Mesmo que não conseguisse boas fotos (algumas se salvaram), só o fato de ter estado lá e poder ter realizado o tour privilegiado, valeu à pena.
Os últimos meses foram difíceis e trabalhosos e ninguém melhor do que eu, sabe como é “viajar” tantas vezes para a Guarapiranga. Trajetos que levavam mais tempo do que as próprias entrevistas feitas. Dias de calor e de chuva. Finais de semana e dias de semana. Não foi fácil. E me lembrei de tudo isso enquanto estava sentada no pequeno barco no meio da água.
O sentimento que fica é que foi um trabalho do caramba, mas não podia ter sido de outra forma. Se fosse, o sentimento de dever cumprido daria lugar ao de decepção, de tempo perdido. Que bom que foi do jeito que foi. Mesmo sem ter finalizado completamente a reportagem e o relatório final (Deus do Céu, nem passei pela banca ainda!) estou feliz.
Tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da cidade em que vivo por apenas quatro anos. Tive oportunidade de entrevistar pessoas muito boas e outras muito ruins. Tive oportunidade de perceber que água, esgoto e moradia são problemas extremamente sérios, mas que são levados pouco a sério. E por fim, tive a oportunidade de sentir o vento e tocar as águas do segundo maior sistema de abastecimento da Grande São Paulo. É uma pena que ele esteja cada dia mais poluído.
O quase-final do temido trabalho de conclusão de curso não poderia ser melhor. Acompanhar a coleta de água da Sabesp me fez lembrar porque escolhi tratar de jornalismo socioambiental e porque falar de natureza é sempre muito gratificante. Fiz o melhor que pude. Pode ter certeza. Agora é só esperar dezembro chegar.

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Diário de bordo – TCC represa do Guarapiranga – parte 3

15 09 2009

foto por: Camila Pastorelli

9 de julho de 2009.

Por causa do feriado, o número de ônibus é menor e por conseqüência, a quantidade de pessoas dentro dele é maior. O dia está quente e ensolarado, o que para um ônibus cheio, não é o tempo ideal. O trajeto dura cerca de 1 hora, como o de costume, mas me sinto bem mais cansada. O desânimo deve ser por causa do calor e do fato de ser uma quinta-feira de um feriado e eu não estar em Pinda.

Ao pegar a lotação Rivieira, no terminal Santo Amaro, me informei com o motorista se havia uma parada em frente à entrada do Parque Ecológico Guarapiranga. Ele disse que sim, “nas duas”. Não sabia que existia mais de uma, portanto, tratei de ficar esperta para descer no lugar certo. Pela primeira vez, peguei uma dessas lotações, em uma situação que honra o nome: lotada. Era criança com sorvete de casquinha escorrendo, famílias com inúmeras sacolas de supermercado, crianças de colo, idosos, o tio querendo vender “pipoca doce, bacon fresquinho” e até um rapaz tentado ler um livro em meio todo o “apertamento”, calor e trilha sonora da rádio Tupi.

Por volta de duas e meia da tarde, cheguei ao Parque e me animei um pouco mais, afinal, havia saído da lotação e convenhamos, não tem como não gostar de entrar em um parque. Fui procurar o Marcos, gestor do lugar desde sua inauguração, em 1999. Não pensei em toda uma entrevista com ele, até porque, talvez ele não estivesse, mas quando conversamos pelo telefone, ficou de deixar um banner e alguns folhetos para mim.

Acontece que ele foi trabalhar no feriado e começamos a conversar um pouco sobre qual a ideia do parque, o que ele oferece e essas coisas todas. Descobri que entre o decreto para a sua criação e a real inauguração, houve um período de 10 anos. Por causa disso, a região que era para ter 330 hectares, foi para 250. Os outros 50 já estavam ocupados.

Quanto mais eu converso com as pessoas que moram ali, mas percebo o quão complicado é falar de meio ambiente num lugar, onde a prioridade não é o meio ambiente, mas sim a subsistência, como bem disse o Marcos. Não que a preocupação não exista. Em alguns casos, percebe-se a degradação da região e movimenta-se para que ela não avance. Como me contou a Maria, moradora do Bolonha, no Jardim Ângela. Com a iniciativa de seu amigo indígena, ela e alguns jovens ajudavam a apagar o fogo da mata, quando pessoas, por sabe-se lá que motivos, resolviam incendiar algumas áreas do Parque.

Contudo, o que há em comum entre Maria e Marcos, duas pessoas vindas de realidades bem diferentes, mas que atualmente vivem no extremo sul da cidade? O aprendizado.

….

Continua.





Represa da Guarapiranga é ameaçada pela poluição.

16 08 2009

Matéria bem realizada pela série Rios de São Paulo, da TV Globo.

Confira aqui.





Diário de bordo – TCC represa do Guarapiranga – parte 2

19 07 2009

foto por Camila Pastorelli

25 de junho de 2009

O ônibus Terminal Guarapiranga era daquele tipo sanfonado, que faz um mesmo motorista transportar praticamente dois ônibus de uma vez só. Era a segunda vez que andava num veículo daquele, e ele sempre vai me parecer uma invenção do Inspetor Bugiganga.

O dia estava frio e com um pouco de garoa. Afinal, já é inverno e os termômetros marcavam hoje cerca de 17ºC no centro. No caminho, toda encapotada de blusas e cachecol, a vontade que tinha era fazer o mesmo que muitos passageiros faziam: tirar um cochilo. Mas como não sabia exatamente quanto tempo tinha até chegar ao local combinado com Dona Maria – onde ela iria me pegar de carro – achei melhor tentar me manter acordada.

À primeira vista, Dona Maria não parece uma senhora de 92 anos, apesar dos movimentos contidos e da polidez das palavras. Ao chegarmos a sua residência, me acompanhou pelo jardim até às margens da represa. Lá, com toda certeza, faziam bem menos que os 17ºC do centro da cidade. O céu cinza e esbranquiçado se confundia com as águas calmas da Guarapiranga. Dali, é possível avistar a Ilha dos Amores e a Rivieira, onde um dos dois filhos de Dona Maria vive.

A leve subida do jardim, de volta à casa, me faz lembrar que estou com uma senhora de mais de 90 anos. Ela se cansa um pouco, acompanhada de perto pelo caseiro, Seu João, e pela esperta cachorra vira-lata de cor preta, que a senhora não se recorda direito o nome…

O jardim tem alguns pinheiros, plantados por Seu João Paulo, pai de Dona Maria, que comprou o terreno do sítio de uma família de alemães, por volta de 1918. O vento frio, a leve garoa e o cheiro de terra molhada nos deixou um pouco caladas por alguns momentos.