Destino: Santiago de Compostela.

12 07 2010

Depois de sumir por uns tempos, aqui estou eu novamente para reviver os dias, semanas e meses da viagem que fiz. A ideia era sempre escrever, à medida que os fatos aconteciam, mas não foi bem assim, né?

Sem problemas! Conheci muitos lugares e pessoas e vou tentar reproduzir aqui, pouco a pouco, essa experiência em ordem cronológica, porque eu sou metódica.

Portanto, estamos por volta do dia 14 de maio, quando decidi ir para Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. A vontade já existia, mas aumentou depois das aulas de história e arte do Caminho de Santiago. Entendemos um pouquinho como surgiu a devoção das pessoas que caminhavam meses em busca da cidade do “campo de estrellas” (Compostela).

Jacobo, Sanyago, Santiago, São Tiago ou St. James foi um dos primeiros discípulos de Cristo e, de acordo com a história, ele morreu no século I, na região da Palestina, Oriente Médio. Como cruzou tantos países e chegou até a Espanha (na época, Hispânia)? Bom, tudo tem uma explicação. A tradição diz que quando vivo, ele foi evangelizador nas terras espanholas e, ao morrer, seus seguidores embarcam com seu corpo no porto de Jope, no mar Mediterrâneo, para que ele fosse levado e sepultado no local onde evangelizou.

Em uma jornada fantástica, com embarcações sem tripulação e touros bravos que foram domados, a tumba de Santiago permanece onde foi deixada pela primeira vez, protegida por um santuário. Antes, pequeno; hoje, bem maior. Os primeiros escritos que citam o descobrimento da tumba são do século IX. Ou seja, entre morrer na Palestina no século I e ser descoberto na Espanha, foram-se bons 800 anos.

Santiago "matamouros", em igreja de Logroño.

As primeiras peregrinações começaram no século X e seguem até hoje. Entre alguns fatores que fazem de Santiago ter a importância que tem está o possível parentesco com Jesus (sua mãe seria irmã de Maria, o que faz dele primo de Cristo). Outro fator é sua proteção aos católicos espanhóis durante a invasão mulçumana na Idade Média, entre os séculos VII e XV, mais ou menos. De acordo com os escritos religiosos, Santiago “matamouros” apareceu, diversas vezes, de espada em punho, montado em um cavalo, para ajudar os reis durante as batalhas.

Além de tudo isso, o Caminho de Santiago serviu para consolidar o território cristão no norte, onde estava a maior parte dos católicos (já que o resto estava dominado pelos mulçumanos), seja com monastérios, seja com igrejas, e por fim, foi também um facilitador para a difusão da arte e cultura europeia (arquitetura, técnicas de pintura, vestuário, culinária etc).

Esse ano, curiosamente, é mais especial do que os outros: é chamado de Año Jacobeo (ou Xacobeo, em gallego). Ele acontece toda vez que o dia 25 de julho (dia de Santiago) cai num domingo. Portanto, em 2010, se você visitar a Catedral de Compostela (de preferência, caminhando, tá?), fizer alguma oração (recomenda-se assistir a uma missa), confessar-se e receber a comunhão, terá um perdão “megablaster” de seus pecados. Essas indulgências foram concebidas pelo papa Alexandre III, no século XI. Dá para imaginar como o movimento aumenta, né? Aposto que o livro do Paulo Coelho até voltou a ser vendido com mais afinco por aí.

Bom, isso é mais ou menos o que eu aprendi por lá, claro que tem muito mais coisa, mas isso não é uma monografia. Vamos voltar para a viagem.

Cheguei a Santiago depois de um longo itinerário: saí de Logroño às 4h da manhã para pegar um ônibus até León (6 horas de viagem), depois de esperar algumas outras 5 horas na cidade, com um frio de 8 graus e garoa, peguei um trem até Santiago (mais 5 horas de viagem). Tava super descansada, como vocês podem imaginar. O pior foi ter descoberto, no ônibus entre Logroño e León que haviam me levado a carteira e o ipod horas antes em uma festa que estava. Fiquei extremamente chateada, mas como a gente tem que pensar positivo, vi que poderia ser bem pior, já que meu passaporte, cartão e as outras passagens de trem e ônibus estavam comigo, em outro lugar, além de um pouco de dinheiro. Ou seja, eu poderia estar barrada na Espanha até agora, sem ter grana ou documento para voltar.

Cheguei ao hostel e já era quase noite. Tomei um merecido banho e fui comer alguma coisa na cozinha, onde encontrei uma americana e um britânico. Ficamos conversando um pouco e depois desmaiei na cama. No outro dia, parti com o meu mapinha em busca da catedral de Santiago. Fui caminhando entre as ruas pequenas da cidade, cheias de lojinhas e cafeterias, todas escritas em gallego, idioma falado na Galícia, que entre as línguas faladas na Espanha é a que mais se parece com o português. Fiquei pensando se poderia colocar no meu currículo, “gallego básico”, já que tava entendo tudo que lia, mas talvez seria forçar um pouco a barra.

De repente, começo a ouvir uma música cantada por várias pessoas. Violões, bandeiras e turistas se misturavam…comecei a filmar, a melodia era bastante envolvente, mas eu não estava entendendo o que era aquilo tudo. Isso foi até levantar os olhos e ver, entre uma esquina e outra, uma parte do santuário. Foi de arrepiar. Acabei chegando à Catedral de Santiago com essa espécie de procissão, junto com um mundo de pessoas. Confira aí embaixo o vídeo.

O encantamento passou quando eu vi o tamanho da fila que tinha para entrar na catedral. Foram 40 minutos de espera fora, depois mais uns 30 minutos dentro, esperando a missa começar. Não consegui lugar para sentar, óbvio, mas deu tudo certo. Ao final, ainda tive a sorte de poder ver o “bota fumero”, que não é utilizado em todas as missas. Ele espalha o cheiro de incenso por todo o santuário. Já pensou se aquilo escapa da corda? Tem um vídeo bom aqui.

A cidade é obviamente voltada para o turismo religioso e chega a ser irritante ver como conchas, cajados e “tartas de Santiago” são vendidos como se fosse água. Você compra um cajado e se transforma em um peregrino na hora, sem nem um calo no dedão. Sucesso. Depois disso, fui conhecer um pouco do município de mais de 100 mil habitantes, que também abriga uma universidade.

Pela noite, fui parar num festival de música gallega. Em uma pequena praça, montaram um bar, um palco e assim estava. Foi BEM divertido, os músicos eram meio comediantes, só podia ser isso, porque eles eram ótimos. O ápice foi quando a última chegou de limusine. O centrinho de Santiago parou, e todos os turistas que passavam (inclusive eu) ficaram se perguntando se os caras eram realmente famosos ou não. Com seguranças empurrando fotógrafos e fãs enlouquecidas, o teatro era completo. Os caras, com camisa amassada, óculos escuros com etiqueta de recém-comprado e copo de “bebidinha” na mão, subiram no palco e cantaram “só” sucessos. Depois de um certo esforço para encontrá-los na internet, esse vídeo foi tudo que achei, mas só tem um pedacinho de cada música. Uma pena. O nome do grupo é “Os Da Ria”.

Apesar de todos os percalços da viagem, voltei bem feliz de ter conhecido Santiago. Um dia ainda quero chegar a pé por lá e fazer como muitos que exibiam, todos felizes, seu passaporte carimbado com todas as paradas do Caminho. Tive o gostinho de andar por um dia e já foi ótimo. Mas isso fica para o próximo texto.

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6 responses

14 07 2010
Bruna Ferreira

puts, Cá… Olha só esses hermanos na criminalidade!! tsc tsc!
Mas, pelo menos vc se divertiu em Santiago!!!
Que delícia, meu!

14 07 2010
yohanandrade

Que delícia de post!!!! Não sabia quase nada de Santiago além do que Paulo Coelho me contou. rsrsrs Imagino como deve ter sido mara essa viagem!! 🙂
Btw, vc andou sozinha pela Europa depois da Espanha?

15 07 2010
Camila Pastorelli

Ah, pelo menos me diverti, né, Bru?

Então, Yo,
Queria ler o livro do Paulo Coelho só para ver como é…ainda não tive coragem..rs
E viajei partes sozinha e partes encontrava com uma outra brasileira que conheci em Logroño que estava fazendo trajetos parecidos com o meu!
Bjo!

12 11 2010
Rubens Munhoz Burgel

Parabéns pelo plog e por compartilhar a sua aventura… Uma delícia estar em Santiago no Ano Santo.
Felicidades!

1 01 2011
João Roberto

Recomendo que “Leia” com muita atenção, a Parábola do Trabalhador da Ultima Hora !!! O sálario é igual para “TODOS” e não apenas para quem tem bolhas nos pés !

1 01 2011
João Roberto

Se tivesses passado pela Porta Santa, talvez teu senso crítico e invejoso dos Passaportes carimbados, te fariam ter mais respeito e elegância com os comentários deste local “SAGRADO”. Agora espera até 2021, na reabertura da Porta Santa ! e leia mais a história.

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