O incrível mundo dos ônibus paulistanos.

20 03 2010

Viver em São Paulo há alguns anos e não ter, no mínimo, uma história curiosa para contar dos transportes públicos dessa cidade…é o mesmo que não morar em São Paulo – ou morar numa bolha, sei lá.

Entre inúmeros ônibus errados e ônibus certos (mas em sentidos errados) que já peguei nessa vida, houve também aqueles momentos mais tensos em que eu pensava “ – Mas isso só pode acontecer comigo!”. E talvez, só tenha acontecido mesmo.

Segue a listinha:

1- Uma manhã bonita com Sol, bom vento. Ônibus relativamente vazio. Eu escuto uma agradável trilha sonora na rádio. Tudo vai bem até que uma senhora com uma bolsa de mão, que antes só parecia ser uma passageira, se revelou uma vendedora. Como estava com o fone não a ouvi direito, mas abaixei o volume só para ver do que se tratava. Aparentemente ela vendia pasta de dente. Não, você não leu errado. Isso mesmo: pasta de dente.

Entretanto, não era uma pasta de dente comum, mas sim um maravilhoso creme dental refrescante – e importado – de erva cidreira ou erva doce ou qualquer outra dessas ervas (menos aquela que você tá pensando). Enfim, ela foi oferecendo e todos, ignorando. Como eu estava bem no final, ela demorou um pouco para chegar até a minha pessoa. De repente, ela abriu uma das pastas e, com um pacote cheio de palitinhos de madeira, pedia para as pessoas experimentarem a “refrescância” do produto. Fiquei morrendo de pena da senhora, e como todos pareciam ignorá-la, fiz aquele contato-olho-no-olho-amigo, porque acho horrível alguns pensarem que a senhora é um fantasma ou que está ali simplesmente pela razão de não ter nada melhor pra fazer em casa.

Como esperado, ela veio falar quase que diretamente comigo. Abaixei o som mais uma vez e disse que não queria a pasta. Mas era uma senhora REALMENTE insistente. Estava quase colocando o creme dental importado no meu dedo. Alguns 15 minutos depois, ela já tinha falado mal de todas as outras pastas de dente do mercado: que eram baratas, mas não resolviam nada; e que ela tinha toda uma linha de produtos –  aquele era só um – e se eu desse o endereço da minha casa, ela fazia uma visita mais calma e mostrava toda a linha. Foi o cúmulo. Aumentei o som e comecei a olhar pra frente. Ela desceu no próximo ponto. Piedade tem limite.

2- Teve a vez que desmaiei no meio de um trajeto. Não foi muito legal, mas as pessoas foram extremamente amáveis. E havia uma enfermeira-passageira! Tudo que lembro foi ela falando, “- Alguém tem alguma barrinha, chocolate ou suco por ai?”. Apareceram várias comidinhas. Ainda dá pra acreditar no ser humano, viu? Melhorei, segui viagem. E depois, no mesmo dia, fui parar no hospital e fiquei uma semana. “Uma virose”. Acontece. Mas o pessoal do busão foi ótimo. Nunca vou esquecer.

3- Uma tarde dessas, voltando do antigo emprego. Peguei um caderno do jornal de alguém, acho que era o Link do Estadão. Era um especial sobre câmeras fotográficas e filmadoras, com VÁRIAS dicas legais, sites com vídeos tutoriais e essas coisas. Estava eu lá, toda entretida. Eis que sinto um “toque-toque” nas minhas costas.

Era um cara que tava lendo a MESMA parte do jornal que eu. Incrível, né? Não, nada incrível, porque se a minha vida fosse um filme – e eu, a Meg Ryan – esse cara poderia ser alto, com um cabelo maravilhoso e super interessante, não é? Mas nem tudo é como a gente imagina. E ele era um tiozão estranho e careca, que produzia filmes (! – novamente: não desse tipo que você tá pensando). Ficou pedindo umas dicas, falando de suas produções e tal. Enfim, ele estava a caminho do cinema, pois era uma semana de filmes brasileiros, até me deu um prospecto (que gentil).

Entretanto, o trânsito não andava e o papo – dele – não acabava. Havia a opção “A” de seguir no trânsito horrorendo até uma avenida importante ou a opção “B”, pegar um atalho pelo metrô. Ele perguntou o que EU iria fazer. “- Uhm…não sei…tá ruim, né?”. “- Ah, eu vou de metrô, senão perco a sessão!”. Estava decidido: eu ia de ônibus.

4 – O melhor fica para o final. Fui agredida por um idoso. De cabelos brancos. De cadeira de rodas! Não, eu não sou uma “odiadora” da melhor idade, nem nada parecido. Só que era um senhor alterado, que pelo que soube depois, realmente tinha problemas mentais. Até aí tudo bem, MAS precisava me bater?

A história foi mais ou menos assim: ele estava naquele lugar reservado para cadeirantes, mas em pé, segurando sua própria cadeira (deu pra sacar a loucura?). O ônibus estava um pouco cheio e o motorista correndo feito um louco. Percebi a instabilidade e fui ajudar o – até então – pobre-senhor-que-parecia-que-ia-cair. No momento que apoiei em sua cadeira, levei o maior tapão. Seguido por mais outro e um sonoro “- Tira a mão da minha cadeira! Você não vai roubar ela, não!”.

Como essa história foi há uns três anos, mais ou menos, posso ter distorcido um pouco as circunstâncias – mas os tapas foram reais e eu, definitivamente, não queria roubar a cadeira de rodas. O fato é que, na época, eu tinha o nível quase 100% de pamonhice e fiquei tão chocada com um velho, digo, um idoso me agredindo, que não falei nada. As pessoas se mostraram solidárias, e um tempinho depois, outro jovem levou um tapa. O rapaz se alterou – de leve – mas depois o cobrador falou para deixar para lá. Era um viajante conhecido, afinal, sempre causando confusão. Mais alguns minutos, o amável cadeirante-de-pé puxou papo com uma moça, querendo saber quanto ela havia pago na bolsa que carregava. Questionou se ela queria trocar com a bolsa que ele carregava (i-m-p-o-s-s-í-v-e-l). Ele deu sinal e desceu do ônibus, contrariadamente ajudado pelo cobrador. Seguiu empurrando sua cadeira de rodas rua abaixo.

Mais estranho que a vida real. É disso que eu tô falando.

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2 responses

20 03 2010
Felipe

Não sei direito porque, mas recebo um e-mail cada vez que você escreve alguma coisa nova aqui. Devo ter me cadastrado em algum RSS – será? Enfim.

Essa história do velho, digo, senhor te batendo parece com a do menino com síndrome de down que bateu no Marvin. Mas eu não vou falar que você roubou de um curta porque sou legal, tá?

Ótimo texto.

Bjo.

25 03 2010
Aline Moraes

Ai ai ai, tive que abafar a risada aqui ao ler sua peripécia no ônibus com o velho (ops, idoso) doido…. Que engraçado! Eu também tenho histórias bizarras com idosos no busão, acho que é um lugar propício para eles se expressarem (doidos ou não). Brincadeiras à parte, gostei do post! E assino embaixo: ter histórias curiosas no transporte público paulistano é o batismo de quem mora nessa cidade louca (que, por isso mesmo, eu amo tanto).

Beijos!

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